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O mundo rural e a cidade

por antonio-jose-leitao-canotilho, em 20.01.20

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Muitas das pessoas citadinas exercem diariamente o trabalho profissional em ambientes fechados, secretária pela frente, bem climatizados, ar condicionado a aquecer ou a arrefecer os espaços. Há trabalhadores muito perto uns dos outros, assistidos por computadores, e para lá das janelas, visualização das avenidas e prédios envolventes. Mesmo com as janelas  herméticas sente-se o odor da poluição.
E, para se chegar ao emprego, muitos vão passar horas no trânsito caótico .

Se a população stressadas da cidade adivinhasse o que é a gente do campo… tão pura, com a fisionomia da face bronzeada pelo Sol e mãos com o cheirinho a terra fresca…

IMG_20200112_144530.jpgPresentemente há muitos citadinos, através do turismo, a procurar o ambiente campestre para férias ou fim de semana em hotéis rurais, onde encontram também rebanhos de ovelhas, cavalos ou vacas. Quase sempre se encantam com este habitat dos mamíferos. 
Mas por vezes não se apercebem que tanta natureza verdejante, colonizada por aqueles animalzinhos, é fruto de muito trabalho, suor e dores de cabeça por aqueles que, briosamente procuram manter os espaços agrícolas atrativos e sustentáveis.

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E é neste habitat, bem pertinho do meu local de trabalho, que encontro as pessoas que, pouco sabendo do mundo da tecnologia dos computadores, (hoje ferramenta base dos escritórios contemporâneos), não tendo mestrados ou cursos superiores, são verdadeiros peritos deste “grandioso mundo rural”.
Aqui encontramos pessoas de 80 e 90 anos de idade a habitar “neste mundo”, tantas vezes em aldeias isoladas, carentes de comércio, sujeitos à visita do padeiro ou merceeiro ambulante que só aparece um a dois dias por semana.

Conheço algumas das aldeias deste interior beirão, as suas gentes vivem e são felizes, graças ao espírito de afeição e companheirismo que existe na coletividade. 
É nos percursos que realizo ao fim de semana, que observo um infinito de terrenos e paisagens verdejantes, aqueles que os citadinos registam os cenários, e os exibem no ambiente de trabalho do Windows, ou então no mural do facebook.

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Amigos do ambiente rural, conheço tantos, alguns são os meus melhores amigos, que trabalham diariamente em temperaturas extremas ou então expostos às chuvas. Coitados, bem tiveram de se adaptar à natureza agreste. Porém também coabitam com outros fatores ambientais consequentes às intempéries das diferentes estações do ano: terrenos encharcado de água, o gelo no inverno, temperaturas a ultrapassar os 45 graus no verão, insetos, riscos de acidentes com máquinas agrícolas, enfim… vidas cruéis e de muitos sacrifícios. 

Na civilidade urbana, geralmente o trabalho é de 8 horas diárias, e mais tempo laboral dará direito a horas extraordinárias ou folgas. 
Aqui no interior rural muitos não sabem o que são férias ou fins de semana, e com um pouco de sorte têm a folga do Domingo. Mesmo assim têm compromissos inadiáveis e imprescindíveis seja regar as plantações ou tratar dos animais. Mas voltando às suas férias... Como? Só esporadicamente, porque os compromissos das tarefas rurais e alimentação dos animais não o permitem.

IMG_2224.JPGRecentemente.vivi e senti “in loco” a rotina dum dia de trabalho com os tais meus amigos trabalhadores rurais e que também participei: a apanha da azeitona. E tal aconteceu num Sábado e Domingo de Janeiro:

Antes do nascer do Sol já todos estávamos levantados, porque tínhamos de nos encontrar às 7.30 da manhã na cidade da Mêda para então delinearmos os trabalhos numa propriedade agrícola mais à frente, e ás 8.00 em ponto.

Começar ás 8.00 na aldeia de Cancelos de Baixo ou na já propriedade agrícola e beber um cafezinho quentinho com um pão fresco, como e aonde? Na propriedade agrícola com Oliveiras a perder de vista, caminho de acesso em terra batida… café ou pasteis… só em miragem. 

O Sol estava a nascer, nevoeiro gelado, terreno e oliveiras encaramelados com as temperaturas negativas. Mas todos iniciamos assim o trabalho com um frio extremo, muito motivados. Sentíamos na pele com esta aragem matinal, e mais à tarde com o Sol uma estranha sensação de queimadura na face.

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Atentamente observava todos no trabalho, muitos de idades novas já tinham a pele enrugada. É que não usam os cremes ou protetores solares, mas também estão mais imunes a lesões graves cutâneas. Sei que não se engripam facilmente, pois o contato rotineiro com as adversidade do tempo, estimula-lhes o aparelho imunitário criando defesas naturais. 

Nas conversa partilhadas em companheirismo não se cismava ou falava em doenças, pois que... não havia tempo para tais discussões, e todos, mais estavam interessados em conversas salutares ou comentários picantes.

Após estes dois dias que tive com interação com estes amigos rurais, entrei em reflexão.
Que abismo entre a vida no mundo rural e no urbano.

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Senti que no mundo citadino apenas se visualiza o fulgor do mundo rural, e neste, a vida é muito dura, bem patente nos rostos de todos com quem convivi.
Será que estes habitats sociais diferentes se complementam?

Tendo acompanhado in loco só dois dias de trabalho, começando ao nascer do Sol e terminando já à noitinha, e esperarem diariamente  que surja a nova manhã para se iniciar novo dia, dói..  mas dói mesmo.
Pelo menos não observamos multidões atarefadas e intelectuais stressadas com o moderno mundo da competitividade e informática.
Não se vai ás grandes superfícies, comprar o fruto da natureza, come-se o que semeia e planta. Por vezes troca-se o azeite por fruta, a cebola por laranja.
Quando há excessos dá-se.
E volto a estes amigos com quem partilhei estes dois dias de trabalho:
todos têm a sua horta e sente-se que se entreajudam nas labutas particulares.
Interessante, partilha-se algo muito nobre e confortante, a sabedoria, a amizade e a solidariedade.
Todos ligados… que ambientes tão acolhedores e humanizados.
Mas… o mundo dos intelectuais, é diferente, uma autêntica selva predadora humana. 

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Que agradável ao me aproximar dalguns que, perante o esforço da vareja e a puxar os toldes, diziam aquelas anedotas ou asneiras mais picante, sem olhar a quem as circundava. O nosso tratorista, por vezes assustava-nos com o receio que se virasse a qualquer momento perante as irregularidades do terreno.
São os tais perigo que coexistem no mundo rural. E, a todo o tempo, todos sentíamos uma verdadeira euforia, pois constantemente surgiam momentos para este ou aquele ser mais atrevido com uma história.

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Sente-se que nos últimos anos a modernidade com a revolução tecnológica da informática está já bem presente nas aldeias. Porém os costume e tradições enraizados tendem em persistir. O ambiente urbano sofreu o fenômeno multicultural das grandes metrópoles perdendo muitas características endógenas.

Conclui-se  que o mundo urbano não pode sobreviver sem o universo rural, cuja realidade só está ao alcance de quem lá vive.  É este que alimenta as cidades, o país e exporta. É um mundo tão agradável e feliz, pois ainda vive na simplicidade e cooperação entre muitos conterrâneos.
Vida pura, não competitiva e tão vívida e saudável.

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publicado às 19:42


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